Engajamento comunitário: aprendizagem para o futuro

Tradução do texto publicado originalmente no blog do Linux Professional Institute.

No período da ditadura militar no Brasil, que durou de 1964 até 1985, o chamado dos estudantes na Universidade de São Paulo tornou-se popular. À noite, todas as luzes da universidade, sem aviso prévio, eram apagadas e, nesse momento, todos os estudantes começavam a bradar: “Ninguém solta a mão de ninguém!”. A partir daí, todos tentavam dar as mãos uns aos outros e juntos, no escuro, procuravam uma coluna do prédio ou qualquer outro lugar onde pudessem se agarrar. Assim que as luzes se acendiam, eles faziam uma chamada por nome ou apelido dos colegas. Mais do que poucas vezes algum não respondia. Depois do resultado das eleições presidenciais, no final de 2018, esse brado tornou-se novamente popular, em grande parte graças às redes sociais e à designer de tatuagens brasileira Thereza Nardelli, autora da ilustração dessa página.

Aqui onde moro há uma comunidade de empreendedores chamada “Taquari Valley” e, sim, eles usam a palavra “Vale” traduzida para o inglês e Taquari é o rio que banha 40 pequenas cidades que compreendem um total de aproximadamente 300 mil habitantes. A mescla de inglês e português é para enfatizar o pensamento “Pense globalmente, aja localmente”, algumas vezes invertido, propositalmente, para “Pense localmente, aja globalmente”. Essa comunidade busca entender o que funciona em escala global em termos de geração de negócios, emprego, renda e redução de pobreza e, a partir desse entendimento, decidir o que pode ser aplicado localmente. Eles também tentam dar de volta ao mundo o que eles descobrem ser boas ideias locais, com potencial alcance global. No início de 2019 todos nos reunimos em um coworking para assistir a uma série de palestras organizadas para o Day 1 Endeavour e conversamos, dentro do grupo, sobre os cases de empreendedorismo e demais ideias apresentadas.

Mas o que “Ninguém solta a mão de ninguém” e o “Taquari Valley” têm em comum? Comunidades nascem e prosperam quando as pessoas estão em perigo e precisam se proteger mas, também, quando conscientemente procuram melhorar a vida de seus indivíduos. E vidas melhores são vidas mais protegidas. Daí a necessidade de termos comunidades fortes.

Comunidades também são fortalecidas quando há a necessidade de lutar contra ameaças já identificadas, a fim de realmente sobreviver e prosperar. Essas ameaças incluem as físicas: fome mortal, tortura e ameaça de morte; e sociais: perda de emprego, de direitos, de liberdade. Interessantemente, quando tais ameaças são mitigadas, as comunidades que foram criadas por razão delas tendem a se enfraquecer e muitas vezes permitem que surja um ambiente onde as mesmas ameaças, ou similares, renasçam. Precisamos de histórias que nos lembrem dos perigos de viver em comunidades enfraquecidas da mesma forma que precisamos de histórias que trazem a visão de um futuro comum para nossas comunidades locais, dentro de uma aldeia global. Precisamos de histórias que incitem ações no presente construindo no topo da aprendizagem passada e precisamos de histórias que construam um futuro melhor. Histórias que nos ajudem a ter uma vida longa e próspera.

Há tempos em que parece impossível para um indivíduo, e mesmo uma única comunidade, sobreviver e prosperar. Há a necessidade de se trabalhar em temas e abordagens coordenadas e em fases. Como indivíduos, somos naturalmente parte de diferentes comunidades, mesmo que não percebamos isso. Nosso cérebro evoluiu de forma a nos tornar curiosos. Também buscamos prazer e, por isso, inventamos formas de satisfazer a nossa curiosidade e obter satisfação. Alguns dirão que a curiosidade é alimentada pela busca do prazer enquanto outros dirão que a curiosidade já se torna um prazer quando satisfeita. Para mim, são apenas abordagens diferentes da mesma coisa. Prazer e curiosidade são dois sabores da mesma essência que nos torna vivos. Ainda levará um tempo para que construamos uma máquina que trabalhará pelo prazer de satisfazer a sua curiosidade. Mas como comunidades de comunidades na aldeia global nós construiremos as máquinas que irão nos garantir todas as outras coisas.

Mencionei temas e abordagens coordenadas e em fases dentro de nossas comunidades. Falemos só da comunidade que irá construir as máquinas que nos darão “todas as outras coisas”. Não há gente suficiente, hoje, nessa comunidade. Mesmo que consideremos a quantidade enorme de pessoas que adentra o mundo da ciência e tecnologia, poucos são aqueles capazes de tornar cidades autolimpantes, energeticamente independentes -- esse é só um exemplo de uma comunidade dentro da comunidade maior que constrói as máquinas que nos darão “todas as outras coisas”.

Não há pessoas em quantidade suficiente construindo toda a cadeia de alimentação, diminuindo a logística de distribuição a um mínimo e permitindo que as pessoas vivam próximas de seus trabalhos, sem a necessidade de transporte, para começar! Claro, elas poderão usar meios de transporte para saciar suas necessidades de prazer e curiosidade.

E definitivamente não há pessoas suficientes para pensar como educar e desenvolver os profissionais capazes de produzir todas as coisas necessárias às várias comunidades que trabalham na construção das máquinas que nos darão “todas as outras coisas”. Estamos totalmente fora de sincronismo nesse aspecto. Para desenvolver esses profissionais precisamos entender que eles não estarão prontos ou produtivos (ao menos na forma como definimos produtividade hoje) quando se formarem nas suas universidades. As comunidades (ou a chamada sociedade) terá que investir em sua formação por um período maior. Em razão disso, em termos econômicos, não faz sentido algum que o dinheiro seja uma barreira para o conhecimento. Felizmente há visionários (Elon Musk é um exemplo) que entendem que o conhecimento deve ser totalmente livre se quisermos construir um mundo melhor.

Trabalho no LPI, o Linux Professional Institute, cuja missão é promover o uso de tecnologias livres ao elevar as pessoas que trabalham com elas. Elevar as pessoas a um nível em que elas possam contribuir com as comunidades que construirão as máquinas que nos darão “todas as outras coisas”. Claro que, como uma comunidade em si, o LPI se sustenta criando e oferecendo certificações no entorno do sistema operacional Linux e outras tecnologias abertas. Para ajudar os profissionais que trabalharão em um futuro incerto, continuamente atualizamos e desenvolvemos novos programas de certificação, firmes na nossa missão enquanto nos mantemos sustentáveis.

O engajamento com a comunidade está tatuado na raiz de nossa missão. Não podemos elevar as pessoas sem engajá-las. Em determinados momentos você nos verá aprofundados em palestras técnicas e, no mesmo evento, incentivar um grupo que ensina como fazer artesanato em biscui ou mesmo a produzir cerveja, explicando aos participantes que tudo isso é conhecimento livre que pode ser utilizado como desejarem, com o bônus de terem prazer com isso, de satisfazerem sua curiosidade.

A tecnologia pode nos trazer um futuro brilhante se formos capazes de trazer pessoas brilhantes e comprometidas trabalhando dentro das comunidades construindo esse futuro. Enquanto isso, jovens e seus pais ainda não sabem que tipo de profissão ou meio de vida estará disponível no futuro. Este é um fantástico momento para reunir famílias inteiras em eventos nos quais falamos de tecnologias livres, conhecimento livre e o futuro. Uma oficina de pandorgas (ou pipas, ou papagaios, dependendo de onde você vive), por exemplo, ilustra facilmente princípios de aerodinâmica, que levam a aviões que vieram antes das espaçonaves que as crianças de hoje poderão construir ou apenas pegar uma carona em uma delas. Dentro dessas espaçonaves haverá, provavelmente, um bom entretenimento holográfico e comida excelente, tudo imaginado e garantido por outras comunidades curiosas na aldeia global.

Que assim seja!



Design: Dobro Comunicação. Desenvolvimento: Brod Tecnologia. Powered by Drupal